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Família Flores do Amaral nos 15 anos de Alcione em 1968.
Família Flores do Amaral nos 15 anos de Alcione em 1968.

Descrevendo fotos e descobrindo Histórias

A Família Treze de Maio

Autor: Franciele Rocha de Oliveira[1]

Orientador: Giane Vargas Escobar[2]

Aqui meu pai conheceu minha mãe, meu padrinho conheceu a esposa dele e assim diversas coisas aconteceram… Eu fiz muitas amizades aqui dentro.  

Valdomiro Camargo Messias

Esse é mais um dos vários depoimentos de ex-sócios do Clube Treze de Maio de Santa Maria, antigo clube de negros, que hoje é Museu Comunitário.

O Museu, localizado na Rua Silva Jardim, iniciou sua História,em 1903, como Sociedade Cultural Ferroviária Treze de Maio. O local funcionava como clube da elite negra de Santa Maria.

Segundo ESCOBAR (2010, p.75), o antigo clube foi construído pelos próprios ferroviários negros da cidade. Alguns relatos contam que inicialmente os encontros eram realizados nas casasdos primeiros associados, mais tarde iniciou o processo de construção do espaço, com materiais reutilizados muitas vezes de trens, onde antigamente era a região periférica da cidade. Cabe destacar assim, que o Treze tem sua origem em ambientes domésticos e familiares: as casas.

No clube eram realizados bailes, festas de debutantes, reuniões de ferroviários negros, juntamente com aulas de etiqueta para moças e concursos de beleza.

Em 1980, o clube entrou em declínio [3] por uma série de motivos, dentre os quais: a inauguração de novos clubes na cidade, a criação de boates, a falta de organização interna e problemas administrativos. [4]

As famílias no Treze

Nas falas dos antigos sócios, nota-se uma recordação das relações familiares contidas no Clube. De fato, o Treze era um espaço de sociabilidade entre os negros, era assim, como uma teia, onde eram tecidas relações sociais pelos seus freqüentadores. Nesse local se formaram várias redes familiares e redes de amizade.

Bons exemplos destas relações fazem parte da história da ex-sócia do Clube, Alcione Flores do Amaral, que assim como Valdomiro Camargo Messias, têm a sua história pessoal- sua história familiar- atrelada ao espaço do Clube.

Alcione Flores do Amaral nasceu em Junho de 1953, sendo filha única do segundo casamento de Agenor Alves do Amaral com Zilda Flores do Amaral. Segundo ela, toda ligação com o Clube começou por meio de seu pai, que “trouxe a tradição do carnaval de Uruguaiana para Santa Maria”, chegando aqui, se dedicou às sociedades de negros, tendo vínculo primeiramente com o clube União Familiar e depois com o Treze de Maio.

Família Flores do Amaral nos 15 anos de Alcione em 1968.

Família Flores do Amaral nos 15 anos de Alcione em 1968.

alcione2

Trabalhando com a descrição das fotos de Alcione, podemos ter grandes fontes visuais de informação histórica, onde muitas delas ilustram as relações familiares contidas no clube negro, sendo ele, um meio para a formação de famílias negras e não negras de Santa Maria. As famílias sempre estiveram ali, concretizadas nos maiores rituais da Sociedade Treze de Maio: Os bailes e festas.

Bailes e Festas

Há fato mais marcante na história das famílias do que as festas?Os bailes e as festas familiares geralmente são marcos na história de muitas famílias, sendo, portanto considerados momentos importantes da vida das pessoas, registrados de muitas formas, sendo a principal delas, as fotografias, essas que tem se mostrado com o passar do tempo fontes indispensáveis ao trabalho do historiador.

As fotos de Alcione Flores do Amaral trazem representações desses momentos de sociabilidades familiares, sejam de famílias já constituídas ou daquelas que estavam começando, expressadas pelo maior ritual que marca o início da formação familiar: O casamento.

 

Alcione Flores do Amaral no casamento de sua prima Iara realizado no Clube Treze de Maio em 1976. [5]

Alcione Flores do Amaral no casamento de sua prima Iara realizado no Clube Treze de Maio em 1976. [5]

Ambos aconteciam no Treze: casamentos, aniversários, bailes de debutantes, festas em que a presença da família é forte, quando não, a grande protagonista, como nas Bodas de casamento.

 
Comemoração de 25 anos de casamento de Agenor Alves do Amaral e Zilda Flores do Amaral em 1976. [6]

Comemoração de 25 anos de casamento de Agenor Alves do Amaral e Zilda Flores do Amaral em 1976. [6]

Considerações finais

A família, de certo modo, sempre esteve na origem da formação do clube, uma vez que eram espaços criados para famílias, ou seja, para manutenção e convivência de famílias negras, onde as questões familiares sempre eram evocadas. Havia uma preocupação das famílias com a educação dos filhos, a formação desses, além de firmar uma sociabilidade entre as famílias de negros, ampliando suas relações e contatos em meio a uma sociedade preconceituosa em que os negros não tinham ou tinham poucos espaços de representação política, cultural e social. Os clubes foram os refúgios dessas famílias, sua afirmação e sua resistência.

 

Referências:

ESCOBAR, Giane Vargas. Clubes Sociais Negros: Lugares de memória, resistência negra, patrimônio e potencial. Santa Maria: UFSM, 2010. Dissertação (Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Patrimônio Cultural). Centro de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Federal de Santa Maria, 2010.

Entrevista concedida por Alcione Flores do Amaral em 21 de Outubro de 2011.

Documentário O Treze em Treze.

Acervo Fotográfico do Museu Treze de Maio. Fundo: Alcione Flores do Amaral.

 

Notas:

[1]  Acadêmica do Curso de História da Universidade Federal de Santa Maria.
[2]  Mestre em Patrimônio Cultural pela Universidade Federal de Santa Maria, Especialista em Museologia pela Unifra e Diretora Técnica do Museu Comunitário Treze de Maio.
[3]  (ESCOBAR, Giane, 2010, p.94).
[4]  Após a decadência do clube, o espaço permaneceu abandonado e nas mãos de outros grupos, que não negros. Em 2001, sentindo-se afetados pela realidade do local, os participantes do movimento negro da cidade, juntamente com estudantes de museologia (UNIFRA), resolveram adotar o espaço com a proposta de recuperá-lo, revitalizá-lo e transformá-lo em Museu Comunitário. Em 2004, o prédio foi tombado como Patrimônio Histórico de Santa Maria, devido a sua importância histórica à medida que a cidade se articulava.
[5]  Fonte: Acervo fotográfico do Museu Treze de Maio. Fundo: Alcione Flores do Amaral AFA031.

[6]  Fonte: Acervo fotográfico do Museu Treze de Maio. Fundo: Alcione Flores do Amaral AFA037.

2 comentários

  1. Gostaria de contar com os irmãos de Santa Maria para fazer um estudo mais amplo sobre as origens Legitimas do Povo Negro Africano, pois tenho várias pistas que me levam a acreditar que O antigo Povo Hebreu(negros) e o antigos Egipcios(negros), são hoje 2000 anos depois, os povos negros que vieram cativos para as Américas, uma estória que foi apagada pela Historia Oficial, e que com muito trabalho alguns cidadões Brasileiros como eu estamos resgatando, uma das maiores dificuldades encontradas são a falta de registros históricos de como estes povos, os Hebreus verdadeiros e os Egípcios, foram ao fugirem dos exércitos Gregos e romanos após a morte de Alexandre da Macêdonia, foram se instalando no interior africano, para o norte eles não poderiam ir ressalto, por causa de seus inimigos, mas o fato é que foram, uma prova disso é os descendentes dos Levitas chamados “Os Lembas” uma tribo abaixo da África subsariana assim como muitas outras, e os descendentes dos Egipcios como os “Dogons” conhecidos como o povo das Estrelas. Porque estudar as origensw? para começar a recuperar a nossa verdadeira identidade é lógico, mas para isso temos que ter boa vontade e responsabilidade, pois são muitos os dessabores a serem superados, e um deles é a resistencia da elite conhecida. Os “judeus” que pousam em pousam em Israel hoje, não são nem de longe os Verdadeiros Hebreus, são Europeus mesmos, sua lingua é o Ydyshi, que usa caracteres hebraicos na sua forma de escrever, e essa língua é como a lingua Alemã antiga!
    escrevam-me: nossosolalado@gmail.com

  2. Este artigo foi desenvolvido na disciplina de Prática do Historiador em Arquivo, ministrada pela Professora Glaucia Konrad e publicado no jornal A Razão,hoje, 27/08/12.

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